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Bom senso de Paris

21 de dezembro de 2015

Artigo por Pedro Passos*, originalmente publicado na Folha de S.Paulo – Na mesma Paris golpeada pelos ataques terroristas de um mês atrás, ministros de 195 países mostraram que a civilização é capaz de vencer a barbárie, ao consagrarem, no fim de semana passado, o mais promissor acordo mundial contra o aquecimento global e os flagelos climáticos decorrentes, se não reduzidas as emissões de poluentes.

O que começou como movimento de ambientalistas e cientistas, vistos como alarmistas décadas atrás, terminou com um “pacto pelo ar limpo” de todos os governos —da China e dos EUA, maiores emissores dos gases responsáveis pelo aumento da temperatura da Terra (o CO2, entre outros), aos pequenos países-ilhas, condenados a desaparecer submersos, caso continue a elevação do nível do mar.

A COP-21 resultou num avanço notável num mundo de antagonismos políticos, religiosos e econômicos, demonstrando (por exemplo, ao governo e aos políticos em Brasília nestes tempos de impasse econômico e político) que pode haver comunhão entre adversários em torno do bem comum.

O pacto para limitar até 2030 o aumento da temperatura global a 2ºC sobre a média da era pré-industrial, com 1,5ºC como meta tentativa, não resolve o aquecimento no mundo por si.  Mas o consenso de que os fenômenos climáticos representam risco real à vida foi animador.

Esse acordo foi inédito —e teve a participação ativa da delegação brasileira, como o presidente Barack Obama reconheceu em telefonema de agradecimento a Dilma Rousseff.  Foi outra demonstração do potencial desperdiçado pela nossa diplomacia para atuarmos de forma positiva em fóruns internacionais.

Por que não fazer uso dessa capacidade negociadora para relançarmos a presença brasileira no cenário internacional, participando da elaboração dos mega-acordos comerciais que determinarão os padrões de comércio, aos quais nosso país será obrigado a aderir sem ressalvas, a não ser que assuma maior protagonismo nas negociações?

Os bastidores da COP-21 também foram agitados pela pressão de empresas e bancos para os governos explicitarem as diretrizes da economia com baixo carbono.  Isso é essencial para o ordenamento regulatório daqui em diante e para sinalizar ao capital onde não mais investir.

Isso aconteceu, embora sem a clareza pedida pelos ambientalistas.  O texto final do acordo excluiu a meta mandatória do carbono zero, por demanda da Arábia Saudita.  Talvez ressurja nos próximos encontros.

Na prática, tal tendência ganha força nos Estados Unidos e na Europa, vista pelo colapso do valor de mercado das mineradoras de carvão, além do abandono da exploração de petróleo no Ártico.  É também relevante o pacto de vários grupos empresariais no sentido de anunciar prazo para que deixem de se servir de energias fósseis.

Fica duvidoso, nesse cenário, que o pré-sal possa ir mais longe do que já existe.  O desenvolvimento no Brasil deve prever dois eixos estratégicos: energias renováveis e eficiência energética.

É outro modo de produção que desponta.  Há muito a ser feito.  Cada país apresentará um plano de ação que será acompanhado globalmente.  Privilegiado por suas condições naturais, o Brasil tem aí uma grande oportunidade para se lançar com determinação e competência em um novo ciclo de desenvolvimento para a agricultura, a indústria extrativa, a manufatura e o setor de serviços, sempre orientado pela ciência, tecnologia e inovação.

A mudança é inexorável.  Mas, em vez de se dedicarem a ela, nossos políticos, enredados pelas mazelas da corrupção, agem para salvar a própria pele, fazendo de Brasília o palco do inferno, só descrito com mais talento na “Divina Comédia”, de Dante Alighieri.  E o clima do planeta?  Ora, deixa isso para depois…

*Pedro Luiz Passos, empresário, é presidente da Fundação SOS Mata Atlântica.

As ações da Fundação dependem da ajuda de pessoas e empresas para continuar. Saiba como você pode apoiar em www.sosma.org.br/apoie.

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